Bio
Geógrafo, carioca, professor, jogador de videogame, imigrante no DF, devorador de livros, rato de internet e fã de Smash Bros. Não necessariamente nessa ordem.

Jogo desde os 04 anos, mas só vou logar aqui o que zerar de 2020 pra frente porque SEM TEMPO, IRMÃO.

1★: tem potencial.
2★: gostei mas não recomendo.
3★: bom pra cacete.
4★: top jogos ever já feitos.
5★: sou EXTREMAMENTE GRATO pelo privilégio de jogar esta maravilha.

Aviso logo que sou bem pouco rigoroso com jogos, se faz o básico eu já tou feliz.

E só dou nota na virada do ano, porque sim.
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Veredito: Olha só como massacraram o meu garoto...

Às vezes eu fico menos puto se um jogo só for uma merda do que se ele for um ótimo potencial jogado no lixo. E jogando Sonic Blast isso foi, mais do que qualquer outra coisa, exatamente o que me deixou puto.

Cara, era pra esse jogo ser bom. Ele tem inimigos bem projetados que nunca mais apareceram na franquia, ele tem fases bem arquitetadas, ele tem chefes legais. Depois das duas duologias, a The Hedgehog 8-bit e a Sonic & Tails, este aqui em tese poderia ser o 3º estilo de se adaptar a pegada do ouriço pra uma máquina mais fraca.

Mas simplesmente nada aqui funciona.

É bonito? Sim, pra um jogo de plataforma no Game Gear ele é lindo... quando você está parado. O Sonic parece que tem no máximo uns 5 quadros de animação quando está correndo, então basta você tentar se mexer um tiquinho só pra tudo ficar feiozão pra caralho.

As fases são maneiras? Seriam, se você conseguisse minimamente ver qualquer coisa. A franquia sempre teve um problema de visibilidade ruim, mas o bagulho aqui saiu completamente de controle. Vá pra frente, caia numa armadilha/inimigo que não conseguiu ver, tente pegar uma argola pra não morrer na próxima. Enxágue e repita. Têm até uns puzzles legais, várias fases são labirínticas e você tem que achar o caminho correto. Mas você SEMPRE vai cair sem querer no caminho errado porque simplesmente não dá pra enxergar nada.

Ao contrário dos outros jogos 8-bit da franquia, que as músicas foram compostas com as limitações do Game Gear em mente (Tails Adventure e Sonic & Tails têm músicas mó legais, falo mesmo) aqui elas parece que foram compostas pra serem antes de mais nada as mais impressionantes possíveis, e depois simplesmente foram empurradas pra dentro do portátil do jeito que dava. Praticamente qualquer música é irritante, justo porque dá pra sentir que elas não saem dos autofalantes do jeito que era pra saírem.

Essa aliás parece ter sido a grande filosofia por trás de todas as decisões de programação nesse jogo: "é pra ser impressionante e, se minimamente rodar, foda-se, tá valendo". A tecnologia de gráficos 3D no Game Gear é pra impressionar, foda-se se o Sonic correndo parece um boneco de palitos-de-dente controlado por uma criança de 4 anos num curta-metragem de 3 segundos em stop-motion. Bota a câmera colada no Sonic sim, que se foda se não vai dar pra ver nada, o que importa é que o boneco do Sonic tá impressionante, olha lá ele. SE TÁ RODANDO, TÁ VALENDO MERMÃO!!!!

Pra não dizer que nada se salva, as lutas contra chefes são realmente legais e criativas, e como a tradição da franquia é elas serem numa tela parada então dá pra saber o que você tá fazendo. As fases de pegar esmeralda também funcionam quase redondo, e dá pra ter uma diversãozinha razoável nelas.

Mas é só isso. E olhe lá.

Por favor, fãs, façam um remake que deixe Blast minimamente jogável. Vocês já fizeram de Sonic & Tails 1 e 2 (e literalmente chamaram os remakes de Sonic Chaos e Sonic Triple Trouble) e todo mundo elogiou. Custa nada fechar com chave de ouro a saga dos remakes do ouriço no Game Gear. Faz esse favor, vai.

Veredito: O primeiro Sonic com foco no enredo, e é maravilhoso por isso.

Sonic é um espírito livre. Não apenas vive salvando o mundo como qualquer herói, mas ele vive a vida como ela deve ser vivida. Ele faz o que quer, porque ele gosta, e isso é motivo o suficiente. Ele é feliz assim.

Não é à toa que ele virou meu modelo. Quando criança eu queria ser igualzinho a ele quando crescesse, e em alguma medida ainda quero. Vergonha nenhuma de admitir.

Nessa época o perigo ainda se limitava ao Robotnik e seus planos antiambientais de dominação mundial. As monstruosidades gigantescas que parecem deuses da destruição só viriam a estrear no Dreamcast. O 2º jogo do Mega Drive terminou com Sonic e seu melhor amigo Tails destruindo juntos a ameaça do Death Egg, uma cópia cuspida e escarrada da Estrela da Morte de Star Wars adaptada ao universo do ouriço. Na queda, o Death Egg caiu em cima de Angel Island, uma ilha voadora e lar do equidna Knuckles, fazendo ela despencar dos céus até o oceano, causando uma verdadeira tsunami. E o doutor megalomaníaco foi lá tentar reconstruir o Death Egg.

Sem saber de nada disso, alguns dias depois de derrotar Robotnik pela 2ª vez, Sonic estava aproveitando a vida com seu melhor amigo. Tails, o engenheiro e cérebro da dupla, tinha inventado um detector-radar para as Esmeraldas do Caos e com isso captou sinais da Esmeralda Mestra, que nenhum dos dois conhecia até então. Sonic estava relaxando na praia e ficou observando uma argola dourada que as ondas trouxeram. Um dia típico na vida da dupla.

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Knuckles é inimigo de Sonic e Tails desde os primeiros segundos deste jogo. Se tu não sabe NADA da relação dele com os outros personagens da franquia então AVISO DE SPOILER deste jogo específico.
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No jogo não aparece argola trazida pelas ondas, o detector-radar, nada disso. Esse é o prólogo da história como descrita no manual japonês. Quando Sonic 3 & Knuckles começa de fato, o Sonic e o Tails já estão voando sobre o oceano (no mesmo avião usado pra salvar Sonic da queda no fim do 2º jogo) a caminho de Angel Island e entrando com tudo na ilha antes de serem emboscados por Knuckles, que rouba deles as 7 Esmeraldas. Essa abertura dura menos de 20 segundos, e imediatamente começa o jogo. Daí pra frente é ação frenética e plataforma de velocidade top de linha. Na metade da 1ª fase um batalhão dos robôs do Dr. Robotnik já taca fogo em toda a floresta da ilha para tentar impedir o avanço da dupla. E é daí pra coisas cada vez mais graves e intensas, envolvendo vários encontros com Knuckles, Robotnik e os robôs dele. Sonic 3 & Knuckles já começa mostrando ao que veio, sem rodeios.

Mas eu acho lindo esse prólogo do manual. Quando Tails veio falar com Sonic da Esmeralda Mestra e da tsunami, Sonic já pretendia visitar Angel Island.

Por quê? Por que ele teve vontade, oras.

Porque o anel dourado que as ondas trouxeram fez ele lembrar de uma lenda antiga, sobre um povo que usou um poder místico para criar uma sociedade de paz e harmonia, de prosperidade e abundância, até que a ganância de um grupo destruísse tudo. E o resultado foi separar aquela parte do resto do continente, criando assim uma ilha voadora, o que fez com que os restos dessa civilização nunca mais fossem vistos.

Ele não sabia que o Death Egg tinha caído lá, nem que estava sendo reconstruído. Não sabia que o tal poder místico era a Esmeralda Mestra que seu melhor amigo tinha acabado de descobrir. Não sabia que o povo antigo eram os ancestrais de Knuckles, um personagem novo tão forte que seria capaz de emboscá-lo - mesmo na forma de Super Sonic - e retirar as 7 esmeraldas dele na marra.

Sonic só lembrou de uma história legal que atiçou a curiosidade e o espírito aventureiro dele, e resolveu ir visitar Angel Island por isso. Era motivo suficiente. Como diz o manual: "Esta argola e essa lenda... Mesmo que só pelo sentimento de nostalgia, Sonic decidiu sair em outra aventura ali mesmo, na hora".

Por quê? Ué, por que sim. Se ir até Angel Island vai fazer ele feliz, se ele se sente pronto pra essa viagem, por que ele não iria? Por acaso precisa se programar com 20 dias de antecedência só pra ir fazer o que ele gosta, cacete?

É isso que faz o personagem brilhar tanto pra mim.

Tipo, Sonic não é só a criatura mais rápida que já existiu. Ele não é só capaz de canalizar o poder das sete Esmeraldas do Caos, se teleportar para o altar delas ao lado da Esmeralda Mestra e então usar ela e o altar para deixar todas as 7 mais poderosas ainda. E daí se transformar em um quase-deus tão veloz e poderoso que dizima todos os inimigos na tela com um simples turbo que a câmera do jogo mal consegue acompanhar. Sonic não apenas destruiu o Death Egg 3 vezes (uma no final de Sonic 2, outra no final de Sonic 3 e mais uma última no fim de Sonic & Knuckles) ao lado de seus amigos, para salvarem o mundo juntos.

Mais do que isso, Sonic é uma alma feliz, capaz de se deslumbrar com as simples coisas legais da vida. Sonic pega uma argola dourada na praia, se lembra de uma lenda antiga, e vai atrás daquilo que enche o espírito dele de alegria. Com o brilho de uma criança nos olhos.

E é por isso que ele sempre foi o meu personagem favorito, o modelo de quem eu queria ser. A energia dele é contagiante demais, cara.

Ao chegar em Angel Island, não nos deparamos só com o Robotnik tentando reconstruir o Death Egg e com o Knuckles. Eventualmente nos deparamos com o que restou do povo antigo, tanto as ruínas submersas (quem reclama de fases da água é porque nunca jogou Hydrocity, falo mesmo) quanto com o próprio altar da Esmeralda Mestra e com um santuário nos céus da ilha. Com vulcões em erupção, e com a profecia da batalha final nos murais de um palácio subterrâneo, enquanto enfrentamos Knuckles logo antes do clímax. Angel Island é um lugar rico em cultura e biodiversidade, e é triste pensar que Knuckles é o último sobrevivente de toda uma civilização. E que Robotnik nem pisca antes de tentar destruir tudo o que restou da ilha só para roubar a Esmeralda Mestra e fazer de tudo para colocar o Death Egg em órbita.

Sonic 3 & Knuckles é um jogasso, do começo ao fim. É um plataforma de velocidade que transborda carisma e qualidade. E que, apesar de seus problemas de polimento e principalmente da visibilidade ruim, e mesmo sendo extremamente mal preservado pela Sega, se tornou um clássico venerado pelos fãs ao longo de 30 anos como o padrão ouro do gênero. E não é sem motivo.

Porém mais do que isso, ele é o 1° Sonic em que a história importa.

Você pode não ligar pra nada do que eu falei, só apertar Start e se divertir pra cacete com as fases excelentes e a física caprichada. É o que a maioria faz, foi o que eu fiz por muitos anos. Eu não tinha acesso ao manual japonês, eu não ligava pra narrativa contada pela ambientação (achava as fases bonitas e só), e as mini-cutscenes pra mim eram só um bônus legalzinho.

Mas hoje eu ligo. Agora sei que o personagem e a franquia que me ajudaram a virar a pessoa que eu sou hoje já tinham aqui a energia e o espírito que eu amo tanto. Era sutil, era bem raso e básico e direto ao ponto, era só um esqueleto do que iria virar depois, mas está aqui.

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SPOILER DO FINAL DO JOGO
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Quando tudo acaba, depois de destruírem o Death Egg pela 3ª vez, Sonic e Tails devolvem a Esmeralda Mestra para Knuckles. Angel Island retoma voo com o poder da Esmeralda, e a dupla mais uma vez sobrevoa o oceano de volta pra casa, enquanto o guardião da jóia sagrada assiste com gratidão ao monomotor deles sumir no horizonte. Quando viram uma argola dourada ser trazida pelas ondas, Sonic e Tails mal sabiam que na outra ponta daquela aventura iriam fazer um novo grande amigo, depois de conhecer todas as paisagens incríveis do lugar onde ele mora. Salvar o mundo foi só uma coisa que os três fizeram pelo caminho.

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FIM DO SPOILER
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É assim que os heróis do mundo de Sonic vivem a vida.

Cara, eu amo demais este jogo.

Veredito: Uma das minhas melhores lembranças.

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AVISO DE GATILHO:
Doenças degenerativas, sofrimento psicológico pesado incluindo ideações de morte, relacionamentos familiares conturbados, morte de pessoas queridas, e profissionais bostas da área da saúde fazendo merda com os pacientes. Tá dado o toque, o texto vai ser LONGO e vai ser TENSO, e eu vou falar pouquíssimo do jogo em si. Continue por sua conta e risco.

Se quiser uma opinião mais curta e mais direta sobre o que eu acho de GoldenEye hoje em dia, dá uma lida na minha outra review.
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Meu pai morreu semana passada.

GoldenEye era (junto de Mario Kart 64) o jogo favorito dele.

Em maio ele foi internado com pneumonia severa. Imediatamente peguei um ônibus e passei quase 20h na rodovia pra chegar até ele.

Como carrego sempre meu Switch na mochila, assim que entrei no ônibus comecei uma partida de GoldenEye. Era meu jeito de conseguir lidar com aquilo, com a ideia de que quando eu chegasse ele talvez já estivesse morto, sem eu enlouquecer. Pegar quase 20h de ônibus enquanto estou praticamente incomunicável já é algo puxado já por si só, então jogar o jogo favorito dele durante o caminho me ajudou um pouco a segurar as pontas.

Por algum milagre de seja lá qual deus você acredite, ele sobreviveu e pôde viver mais um mês. Eu achei que ele não ia sair vivo daquela CTI. E de fato, ao ser internado de novo com a mesma pneumonia só que bem piorada (saturação ficou em 75% por algumas horas antes dele morrer, enquanto estava dopado de morfina), não teve mais jeito. Quando ele morreu, eu estava no portão de embarque do aeroporto esperando dar o horário do meu voo, numa segunda tentativa de dar tempo, por mais que eu já soubesse que dessa vez não ia rolar.

Talvez seja melhor eu rebobinar um pouco.

No comecinho do ano passado, meu pai descobriu que tinha esclerose lateral amiotrófica - ELA. As pessoas conhecem como "a doença do Stephen Hawking" mas isso é uma péssima definição, porque o Stephen tinha acesso a um milhão de ferramentas que deram pra ele uma qualidade de vida muito acima da maioria das pessoas que pegam isso. ELA é uma doença neurológica que, pra resumir, te impede de se mexer. Você mantém todas as faculdades mentais intactas, você continua inteligente e atento, continua com senso de direção e noção de espaço, tudo. Enfim, continua sendo você normalmente. Continua sentindo dor, fome, frio e calor, vontade de se coçar, etc etc etc. Mas pouco a pouco você vai perdendo a capacidade de fazer qualquer tipo de movimento. Ou melhor, qualquer tipo de movimento voluntário. Os involuntários (respiração, batimento cardíaco e tals) continuam funcionando de boas.

Começa com movimentos de precisão fina, aí chega nos dedos, nas mãos, braços, etc. Das extremidades para o tronco e desse para o pescoço e cabeça. Você começa com, por exemplo, dificuldade pra usar palito de dente. Para o meu pai, perder os movimentos de precisão fina foi um pouco mais difícil do que pra maioria das pessoas, porque depois de aposentado ele virou artista visual. Ele pintava, desenhava, fazia carpintaria (a bola da vez quando a doença atacou era construir casinhas de passarinho), modelava barro (tenho lá em casa uma caneca e vários potes e vasos feitos por ele) mas a grande paixão era a escultura. Principalmente escultura de metal. Quando estava brincando com bronze ele fazia cavaleiros templários, fênix levantando voo, bailarinas dançando, tudo que ele achasse que ia ajudar a melhorar as habilidades de escultor, pra em cada obra fazer algo um pouco mais difícil do que a última. Uma vez, me deu de presente surpresa de aniversário uma estátua do Link (versão Zelda: Twilight Princess, meu jogo favorito da franquia) cheia de detalhes no rosto e no escudo, que até hoje mata todos os meus amigos de inveja.

Então quando a ELA começou a mostrar os sintomas, a primeira coisa que ele perdeu foi a precisão nos dedos. E sentiu que não conseguiria mais fazer arte. Foi bem difícil.

Se recusando a se dar por vencido, ele inventou o que dava pra inventar. Não tinha mais como segurar com os dedos, então ele amarrava pincéis e secadores de cabelo nos pulsos pra poder pintar quadros do jeito que conseguia. Quando eventualmente ele não conseguiu mais ficar de pé e nem usar as mãos, prendeu um mouse colibri no óculos e ficou desenhando nos Ibispaint e Sketchbook da vida. Meu pai era teimoso, persistente, e absurdamente pró-ativo.

Só que, cedo ou tarde, a esclerose fez ele desenvolver uma depressão que ficou cada vez mais violenta. E no fim das contas isso foi o que fodeu com tudo.

A parte mais cruel da ELA, ou pelo menos foi a impressão que fiquei enquanto assistia ao meu pai definhando, é que em algum momento você acaba virando um hóspede dentro do próprio corpo. "É uma prisão", nas palavras do meu velho. Todos os tratamentos atuais - fisioterapia, remédios, etc - são pra desacelerar o avanço da doença, pra que você possa ter um mínimo de qualidade de vida ainda por alguns meses ao invés de por poucas semanas. Porque ela é irrefreável. Nem pensar em reversível. No início pode até ser "só" não conseguir fazer movimentos finos ou ter dificuldade pra segurar uma caneta, mas chega uma hora que você não consegue mais mexer as mãos, os braços, a cabeça. Não consegue mais limpar a própria bunda, mastigar a própria comida. Antes de pegar pneumonia mês passado, meu pai não conseguia mais falar. Porque ele não conseguia usar direito os músculos da boca, pescoço e garganta. Então além de não poder falar e da dificuldade pra comer ele ainda tinha vários acessos de tosse - e acessos bem violentos - todos os dias, muitas e muitas vezes por dia. Pra mim e pra quase todo mundo, secreção na garganta é só mais uma terça-feira qualquer. A gente engole a saliva, faz um pigarro, no máximo força um catarrão gosmento pra fora, e vida que segue. Isso é um luxo que a ELA nega às suas vítimas.

Você está em pleno uso das suas capacidades mentais, você é uma pessoa normal e inteligente, um adulto dono do próprio nariz e responsável pelos próprios atos, perfeitamente capaz de observar o mundo à sua volta e de tomar suas próprias decisões... E fica assistindo impotente enquanto seu corpo morre pouco a pouco, dia após dia. E não existe nada, absolutamente nada que você possa fazer pra impedir.

Não tem psicológico que aguente.

Quando meu pai foi internado com pneumonia em maio ele torceu pra não sobreviver, e não foi a primeira vez que ele teve esse tipo de ideação.

Na época daquela internação, enquanto jogava GoldenEye no ônibus cortando o Sudeste até a casa dele, pensei em como era engraçado que justo este fosse o jogo favorito do meu velho. Meu pai não gostava muito de videogame, nem quando recebeu o diagnóstivo e nem tinha a idade que eu tenho hoje. Ele adorava aeromodelismo desde sempre, lá pelas tantas começou a curtir corrida de longa distância (o cara já correu uma maratona certa vez, eu fico cansado só de imaginar) e sempre foi um flamenguista doente, mas videogame pra ele era só uma coisa que existia. Era igual muitas pessoas do Backloggd provavelmente são com filmes, livros ou esportes que não sejam futebol: um jogo aqui ou ali ele até jogava e tals, mas não era a praia dele.

Mas GoldenEye de N64 ele ADORAVA.

GoldenEye é um jogo em primeira pessoa com uma alavanca só, controles duros, mecânicas questionáveis, dificuldade injusta pra cacete... Enfim, não é nada amigável. Nem pra quem é viciado em videogame, e quiçá para os pais e avôs que foram jovens na época da ditadura militar e que nunca curtiram jogar. Para todos os efeitos, meu pai deveria não aguentar 5 minutos com este jogo. À primeira vista a explicação parece óbvia: na época que comprou ele pra mim, meu velho era fã dos filmes do 007, e GoldenEye provavelmente foi o filme favorito dele na franquia - até porque ele também era fã da Tina Turner. Mas eu conheço minha laia, e falo com tranquilidade que a resposta é muito mais legal:

Meu pai gostava de GoldenEye porque nós dois jogamos muito ele juntos. É só isso.

No natal de 1997 eu já era fã de Sonic há muito tempo, e tinha passado os últimos anos vidrado no meu Mega Drive. Meus pais planejavam se mudar pra outro bairro em poucos meses e, imagino, estavam receosos de como eu e meu irmão iríamos reagir à mudança, então provavelmente acharam que a gente merecia um videogame novo de última geração. Na época o N64 era absurdo de caro e o salário no Brasil era absurdo de baixo, mas acredito que na cabeça dos dois era algo tipo "se eles ficarem chateados e não gostarem do lugar novo pelo menos vão ter esse consolo até conseguirem se adaptar". Não foi barato, eles não eram ricos, mas devem ter feito uns apertos aqui e ali e compraram um N64 para nos dar de natal logo antes da mudança, com um jogo de livre escolha pra cada um. Meu irmão pegou Mario Kart 64 (que eu também passaria boa parte dos anos seguintes disputando battle e mushroom cup com o meu pai, e ele era real oficial muito bom no jogo) e eu peguei GoldenEye.

E assim foi. Ao longo da minha infância e pré-adolescência eu passaria uma fatia considerável do meu tempo livre revezando o controle com meu velho até zerarmos a campanha do GoldenEye. As fases são curtas e as mortes eram constantes, então a gente passava o controle com muita frequência. Eu era uma criança com praticamente zero experiência em jogos de tiro, muito menos em primeira pessoa, e ele era só um adulto que a priori não gostava de jogar quase nada. Mas fazia de tudo pra me apoiar nas coisas que eu curtia, e videogame não seria a exceção. Passamos da 1ª fase, passamos da 2ª, da 3ª até eventualmente comemorarmos juntos quando desceu a tela de créditos. Aumentamos a dificuldade, dominamos as mecânicas de tiro e stealth (pau do cu da klobb, pior arma do jogo, o Ken Lobb merecia uma homenagem menos impraticável), aprendemos a manipular a IA dos inimigos e a tirar proveito das longas animações de dor deles, passamos muitas noites e fins de semana controlando James Bond. Eventualmente até assistimos juntos a alguns filmes da franquia, que por sinal foi quando descobri que esses filmes definitivamente não são pra mim. XD Mas isso é outra história.

O tempo passou, meus pais se divorciaram, eu fiquei morando com minha mãe (mais por apego ao bairro do que qualquer outra coisa, mal sabiam eles no começo de 1998 que a casa nova pra onde estávamos indo iria virar um dos meus lugares favoritos do mundo) e com isso segui jogando GoldenEye. Sozinho na campanha, e mata-mata com meus amigos no modo multi.

Quando eu estava pra fazer 18 anos, minha mãe já tinha se mudado pra outra cidade, e eu tava morando com meu pai fazia algum tempo. E foi aí que brigamos feio.

Acho que nunca briguei com ninguém do jeito que briguei com ele naquela noite. Sempre fui bastante pacífico, sou e era um bom argumentador e um bom intermediador de conflitos, sempre tive um ótimo senso de perceber a merda e evitar que ela aconteça. E sempre fui muito obediente, talvez até demais. Meus pais na filosofia deles de "melhor pecar pelo excesso do que pela falta" já usaram a autoridade de pais em muitos momentos que não deviam, e sem exceção eu obedecia todas as vezes. Puto e chateado, geralmente com razão, mas obedecia. E eles sempre reconheceram isso abertamente, sempre me agradeceram por esse meu traço e sempre pediram desculpas pelos erros. Mas naquela noite, meu pai estava no telefone comigo quando me deu uma ordem tão absurda e descabida (ele estava cheio de boas intenções, mas enfim) que pela primeira e última vez (afinal, eu estava pra me tornar responsável pelos meus atos) eu desobedeci ele.

Na cara dura.

De frente.

"Não vou fazer isso que você está mandando. E você não tem como me forçar, porque você está aí e eu estou aqui."

Vou pular os detalhes do que rolou um dia depois, quando cheguei, mas basta dizer que quase fugi de casa na manhã seguinte. Pouco depois, fiz 18 anos e foi quando eu não pisei mais lá e nem olhei mais na cara dele.

E depois disso foi só ladeira abaixo.

A briga com meu pai me obrigou a adiantar planos que eu tinha pensado originalmente no médio prazo. Eu ainda estava na metade do ensino médio na Federal de Química - uma escola puxada pra cacete, que mistura ensino médio e curso técnico num diploma só e com isso demora mais pra se formar do que um ensino médio "puro" - e um professor específico que não ia com a minha cara era um escroto que reprovava só de maldade quando não gostava do aluno. Mas eu ainda não tinha lugar pra morar nem emprego, e pra mim naquele momento isso era mais urgente do que minha vida escolar. E como Murphy não perdoa ninguém, pra piorar tive uns problemas de espiritualidade bastante tensos nessa exata mesma época.

Em poucos dias, meus pai e minha mãe achavam que eu tinha enlouquecido. Tipo, enlouquecido mesmo, clinicamente. Não culpo eles, do ponto de vista onde eles estavam acho que deve ter parecido isso mesmo: eu mudava de rumo de última hora o tempo todo (se estivesse no ônibus indo pra casa e via uma república, ou lembrava de um possível emprego ali perto de onde estava passando, eu descia NO ATO pra ir visitar o lugar), não dava nenhuma satisfação de nada nunca, e tanto minha mente quanto minha fala estavam hiper aceleradas. Tipo, eu tava prestes a fazer 18 anos e sair de casa mas não tinha perspectiva nenhuma de conseguir emprego nem teto, estava indo mal pra cacete na escola e tinha acabado de (ou pelo menos era o que eu acreditava, depois descobri que a treta era outra) brigar feio com meu espírito guardião. Não é de se estranhar que eu não estava fazendo nenhum esforço pra conseguir me comunicar melhor com minha família. Minha mãe estava a mais de 2 estados de distância, e a menor das minhas preocupações era ser claro e didático com o arrombado do meu pai, que eu nem queria olhar na cara desde poucos dias atrás. Ele que se fodesse, eu tava cagando pra isso, minhas prioridades eram outras.

Não é nenhuma surpresa então que tenha ido tudo pro caralho. Se meus pais achavam que eu estava psiquiatricamente dodói, minha estratégia de não dar o mínimo de satisfação só poderia sair pela culatra.

Vou pular os detalhes de novo, mas basta dizer que me levaram num psiquiatra e que esse psiquiatra foi um médico de merda. Graças a ele e à política "melhor pecar pelo excesso do que pela falta" que meus pais seguiam religiosamente, eu fiquei sem privacidade nenhuma por muito tempo: eles de início acharam que eu estava me drogando e eu tive que passar um tempo de cuecas num quarto vazio com gente "de confiança" na porta e, depois que viram que não era droga, ficaram achando que eu tinha uma doença específica que qualquer idiota perceberia que eu não tinha e que, na cabeça deles, poderia me fazer despirocar e enlouquecer de vez. Então achavam que era papel deles acompanhar cada respirada minha pra evitar isso. Mas a coisa foi bem mais longe do que "só" 100% coleira e zero privacidade. Eu quase fui internado pelo menos 3 vezes graças a esse médico, e ao medo que ele botava nos meus pais do que poderia acontecer comigo se ele parasse de me pseudo-acompanhar. Vá lá, pra ser justo não foi só ele. Fui em muito médico ruim e pelo menos uns 3 quase me internaram e botaram terror nos meus pais. Passei muitos anos (desde os quase 18 de idade até os... 24 ou 25 mais ou menos?) tomando remédio psiquiátrico sem acompanhamento médico absolutamente nenhum. O psiquiatra bosta deixava a receita na recepção, a gente vinha pegar a receita, pagava a consulta (ainda na recepção), virava as costas e ia embora. Meus pais compravam a caixa nova numa farmácia qualquer, eu tomava o remédio todo dia até a próxima "consulta", e todo mundo menos eu fingia que isso era normal e que tava tudo bem. Que finalmente a situação que se instalou às vésperas do meu dezoitão tinha ficado sob controle. Meus pais e o médico estavam felizes com o que, aos olhos deles, era um desfecho ao meu trágico "surto psicótico induzido por droga" que poderia inclusive "ter resultado em algo muito pior".

Porque não importa o quanto fosse óbvio que ele era um médico ruim (quem dá um diagnóstico psiquiátrico com menos de 5 consultas, e depois passa anos receitando remédio sem acompanhar o paciente?), meus pais acreditavam cegamente em qualquer coisa que ele falasse e eram surdos pra qualquer coisa que eu dissesse. Afinal, "você não tem diploma de medicina e foi ele quem te tirou do buraco". (sic)

Foi uma época difícil. Se não fossem meus amigos próximos e minha esposa (na época namorada: conheci ela no meio desse furacão, literalmente 3 semanas antes de eu fazer 19 anos) formarem uma rede de proteção fodona, certeza que eu teria surtado real oficial, e certeza que meus pais enxergariam isso como uma prova irrefutável de todas as teorias da conspiração que criaram.

Mas o tempo passou, como sempre passa. Resolvi meus problemas de espiritualidade, parei de tomar o tal remédio (chega uma hora que não dá mais), procurei uma psiquiatra boa, fui morar num lugar legal, fui estudar o curso que eu queria na universidade que eu desejava, mudei de emprego várias vezes, sempre para um trabalho melhor que o de antes... Toquei minha vida, sabe? Meu casamento era maravilhoso, e ainda é. Minha vida financeira tava resolvida. Eu e minha rainha estávamos estudando o que gostávamos, para poder trabalhar com as nossas vocações. Eu morava na melhor cidade do mundo. E pra completar, eu tinha problemas reais de saúde pra cuidar, minha coluna por exemplo é toda fodida até hoje. Não dava mais pra ficar me preocupando com um diagnóstico vazio, furado, tosco, feito em pouquíssimas consultas por um profissional ruim, que logo depois disso nunca mais me consultou. Não importava o quanto meus pais se apavorassem com a ideia, a vida era minha. A saúde que estava em jogo era a minha, não a deles. Então a decisão também era minha, oras. Não é óbvio? Eles deveriam ter sacado isso quando não quiseram me escutar anos antes, na hora que avisei que eu não confiava no médico e que o diagnóstico tava errado. Teria sido melhor pra todo mundo.

Não dá pra ficar preso na âncora pra sempre. Chega um ponto que ou eu me livro dela ou então eu nunca saio do fundo do mar.

E foi uma das decisões mais acertadas que já fiz na vida. Nunca mais tomei um remédio errado, menos ainda sem acompanhamento profissional sério. Obviamente nunca voltei naquele psiquiatra específico, não importava o quanto meus pais fizessem chantagem emocional e apelassem pra política do medo. E minha qualidade de vida disparou em uma velocidade meteórica.

Mas com o passar do tempo vieram também coisas... inesperadas. Meus pais, que a priori chegaram ao ponto de chantagear minha esposa pra ela não deixar eu parar de tomar o tal remédio (afinal, eles não poderiam mais assinar uma internação compulsória) começaram a ficar cada vez mais tranquilos. Não só nesse assunto, em todos os outros. Não um tranquilo "foda-se essa porra, tou lavando as minhas mãos" e sim um tranquilo sincero. Minha mãe, que sempre foi extremamente invasiva e entrona, parou de se meter na minha vida. Quando ela oferecia ajuda, agora era num desejo sincero de ajudar e não mais numa petulância condescendente, não era mais numa mentalidade de achar que sabe o que é melhor pra mim mais do que eu próprio e disfarçando isso de "só tou tentando ajudar". Meu pai apoiou meu casamento quando todo mundo tentou minar ele (minha família achava que eu era "muito novo pra casar" e tentaram me fazer desisir de todos os jeitos que puderam, meu pai foi uma das poucas exceções) e comemorava horrores quando eu conquistava qualquer coisa: meu emprego novo, a faculdade, tudo. Os dois fizeram de tudo pra estar presentes quando estourou a pandemia de COVID, que foi quando fiquei sobrecarregado nos meus dois empregos da época e sofri um burnout foda.

Meu pai... pediu desculpas. Muitas. Assumiu os erros, matou a responsabilidade no peito. Perguntou o que podia fazer por mim e ajudou em tudo o que pôde para amenizar as merdas que ele tinha feito lá atrás. E ficou felizão quando soube que eu estava sendo acompanhado por profissionais bons. (minha mãe também, mas o foco deste texto não é ela =P)

Antes, muito antes da ELA atacar meu velho, eu já tinha perdoado ele. Por tudo. Pela ordem imbecil que desembocou numa briga idiota. Pelo médico ruim. Por ter se recusado a me dar ouvidos quando eu mais precisava. Por ter atrapalhado meu desenvolvimento espiritual. Por ter fodido com minha saúde mental num dos momentos mais delicados que eu já vivi, que foi a chegada da maioridade.

Não foi fácil, não foi rápido. E acima de tudo, não foi indolor. Mas eu perdoei meu pai.

Os erros dele que contei aqui não foram os únicos. Os erros dele foram enormes, foram graves e tiveram consequências. Não existe família perfeita e eu também vou errar muito como pai. Mas, mesmo que eu quisesse negar, a verdade é que ele extrapolou muito o limite normal de que todo pai comete erros. Ele pode até não ter sido um escroto sem caráter igual várias outras pessoas que geram filhos. Mas se eu nunca mais perdoasse ele, ninguém poderia me julgar.

Mas tudo bem. Passou. Demorou, mas passou.

Numa jogada trágica do destino, a esclerose do meu pai veio justo quando meu filho nasceu. Quando meu pai recebeu o diagnóstico e descobriu que nunca mais poderia fazer esculturas, uma das maiores tristezas que ele teve de imediato foi a de não poder criar coisas para o neto. Ele tentou, ele tentou DEMAIS, mas a doença foi implacável. Meu filho jamais receberia canecas, vasos, estátuas e brinquedos de presente feitos pelas mãos do avô dele, igual eu recebi meu Link e tantas outras coisas. Meu pai só conseguiria pegar o neto no colo uma única vez, e mesmo assim bem no comecinho da esclerose antes dos sintomas piorarem, e mesmo MESMO assim teve que ser toda uma operação, com os dois rodeados de todos os cuidados possíveis: sentado numa poltrona mega confortável, com mil almofadas em baixo pra apoiar, e duas pessoas ao lado pra caso precisássemos acudir. Meu filho quando crescer só vai se lembrar do avô pelas fotos e vídeos. Se a gente fosse de duas gerações atrás, ele nem isso poderia ter.

Mas o meu pai, quando morreu, pôde se lembrar do neto. Infelizmente eu não tive o dinheiro pra rodear meu velho de todas as ferramentas que o Stephen Hawkings teve, pra que ele tivesse qualidade de vida por mais do que alguns poucos meses. Mas eu pude levar o meu filho pra uma cidade do outro lado do país o máximo de vezes que consegui, pude fazer meu guri brincar na casa do avô até não aguentar mais de tanto rir. E essas risadas juntos, do meu pai e do neto dele, sempre serão as coisas mais valiosas que os dois já fizeram um pelo outro. Muito mais do que mil estátuas e brinquedos poderiam.

Eu tive o privilégio de ter um dos melhores pais do mundo. Sim, um dos melhores. Com erros e tudo. Não é todo pai que faz de tudo pra apoiar o filho em praticamente todas as áreas da vida, aconteça o que acontecer. Que se esforça pra que o filho esteja esteja bem orientado e ao mesmo tempo livre pra fazer o que quiser em todas as vias possíveis: espiritual, emocional, profissional, acadêmica, sexual, romântica, tudo. Ou que engole o orgulho, admite o erro, pede desculpas e faz tudo o que está ao alcance para consertar a cagada, igual o meu fez muitas e muitas vezes ao longo da vida. Não foi mais do que a obrigação dele? Talvez não tenha sido mesmo, mas foda-se mermão. Foi inspirador, foi uma das coisas que mais me deram alegria nesta vida, não só importantíssima pra eu ser hoje um adulto funcional e feliz como é uma das que mais segue me ajudando a, eu próprio, ser um pai legal pro meu garoto. Foi um papel de família sendo bem cumprido.

E fico feliz que meu filho teve o privilégio de ter um dos melhores avôs do mundo. Infelizmente, boa parte desse convívio rápido e curto foi atrapalhada por uma depressão aguda, causada por uma doença neurológica escrota e cruel chamada esclerose lateral amiotrófica. Mesmo assim, "cadê o sorriso do vovô?" sempre será uma das frases mais imortais na minha memória.

GoldenEye sempre será uma das minhas melhores lembranças. Pra mim ele é muito mais que um jogo de tiro cheio de problemas, baseado num filme que eu não gosto. É a lembrança de alguns dos momentos mais gostosos de uma infância com um dos caras mais legais que já conheci. Desde criança, eu nunca consegui jogar a campanha de GoldenEye sem lembrar do meu velho. Sem lembrar das noites de sexta e tardes de sábado na frente da TV de tubo, tentando passar da Facility ou da Caverns na dificuldade 00 Agent, e rindo um da cara do outro sempre que vinha um inimigo cretino pelas costas e matava a gente sem aviso prévio. É acima de tudo a lembrança de um pai que não gostava de videogame mas que se esforçava tanto para apoiar o filho, e para passar o máximo de tempo com ele, que passou a gostar.

Depois de tudo que fez por mim e de tudo que passou, pai, de todo o exemplo de superação que você se esforçou pra ser, amarrando secadores de cabelo no punho pra pintar quadros físicos, e aprendendo a pintar telas digitais usando ferramentas tecnológicas que tu não dominava, você mais que merece esse descanso. Te vejo do outro lado daqui a algumas décadas, e espero que então a gente possa bater mais umas battles e mushroom cups de Mario Kart 64, já que não pudemos fazer isso no fim da sua vida.

E enquanto isso continuarei jogando GoldenEye e lembrando de você. Um mês depois que comecei a rejogar ele pra aguentar a viagem longa até sua casa, e 2 dias depois da sua morte, eu vi a tela de créditos. E vou continuar pensando em você enquanto faço o resto da platina.

Eu te amo, paizão. Fica em paz.